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Prateleira vazia

07
Set21

Memorial de Aires - Machado de Assis

Margarida

 

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Tudo serão modas neste mundo, excepto as estrelas e eu, que sou o mesmo antigo sujeito

Comprar livros em segunda mão é um hábito que para mim, ultimamente, se tem tornado mais recorrente. São, por norma, mais baratos e muitas vezes se encontram pequenos tesouros que com dificuldade teríamos encontrado comprando apenas livros novos. Memorial de Aires foi o caso. Encontrei-o num saco das compras completamente cheio de livros antigos no mercado aqui da vila. Quando vi o nome do autor, relembrei-me de uma menção positiva que alguém na Internet que acompanho tinha feito à sua escrita e, sem grandes expetativas pois desconhecia totalmente a sua obra, decidi trazê-lo (juntamente com mais 2 livros que talvez verão aqui um dia no blog). O que se seguiu foi uma surpresa completamente bem vinda.

Deixo aqui esta página com o fim único de me lembrar que o acaso também é corregedor da mentira. Um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exacto e sincero.

Memorial de Aires é o último romance de Machado de Assis e foi publicado no ano da sua morte, 1908. O livro consiste numa série de entradas de diário do, agora reformando, conselheiro Aires que vai descrevendo e refletindo sobre o seu dia a dia e o das figuras que o acompanham. Observa e anota, com calma e ponderação, as relações que se vão desenrolando entre os seus conhecidos, pertencente à elite brasileira.

Se procuram um livro repleto de ação e peripécias, esta não é de todo a recomendação para vocês. No entanto, apesar de ter uma escrita acessível, esta é uma obra repleta de reflexões profundas sobre temas como a morte, ironia e diversas referências literárias. Exemplificando, o verso "I can not give what men call love" de Percy Shelley serve como uma espécie de mote para o conselheiro Aires, que sobre ele reflete em diversas entradas do seu diário.

O ponto de vista do velho diplomata serve-nos como um ponto de partida para a reflexão sobre o contraste entre a impulsividade da mocidade e a calma dos que por ela já passaram há muitos anos. Tanto que, enquanto jovem que indubitavelmente ainda sou, senti uma nostalgia por uma juventude que ainda é minha e que não perdi.

Outro facto a mencionar, é o de que este livro se passa durante o processo de abolição da escravatura no Brasil. Este é um momento que fornece algum desenvolvimento à narrativa mas a que não é atribuído uma importância fundamental para a história, visto pouco ser o impacto nas elites das quais vamos observando o quotidiano. Mesmo vivendo um momento revolucionário, as suas preocupações continuam as mesmas pequenas e banais situações do seu dia a dia.

Hoje conto não sair de casa, que faço anos. Chego aos meus sessenta e... Não escrevas todo o algarismo, querido velho; basta que o saiba o teu coração e vá sendo contado pelo Tempo no livro de lucros e perdas. Não escrevas tudo, querido amigo.

Deixo-vos aqui esta recomendação se, como eu, procuram um livro lento e nostálgico que ajuda nesta sempre estranha transição do calor impulsivo do verão para o calmo cair das folhas outonal. Sentem-se e desfrutem.

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